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27/03/2007 17:07

Crime ao ambiente só é crime pois foi verde

Notícia base: Poluição dá o tom no córrego de favela


foto de Tiago Queiróz (Agência Estado)

SÃO PAULO – Moradores da favela Funerária, no Parque Novo Mundo, zona norte da capital paulista, estão indignados com a tragédia ocorrida na tarde desta terça-feira. Kléber Pereira da Silva, de 12 anos, morreu afogado, por volta das 16h, após cair no córrego que banha a comunidade quando voltava da casa de um amigo. O pequeno riacho é conhecido por receber resíduos de uma empresa têxtil que funciona pela região, o que faz com que a água mude de cor a cada dia. Kléber, o menino que só queria ser piloto de caças, era daltônico.

Testemunhas dizem que Kléber não entendeu o porque seus amigos começaram a se afastar dele e seguir para a ponte quando se aproximavam do riacho. “Ele chegou a cheirar a própria axila, achando que cheirava mal após jogarmos bola o dia todo”, lamenta Michael de Souza, melhor amigo de Kléber. “Nós também não entendemos o porque ele seguia em direção da água. Achamos que ele fosse fazer algum tipo de brincadeira”, continua. “Mas ele realmente achava que aquilo era asfalto”, completou. “Maldito dia da tintura verde!!!”, completou o desabafo.

Familiares e amigos de Kléber afirmaram, no entanto, que o garoto não tinha conhecimento de sua deficiência. “Ele queria ser piloto de caças, como eu poderia dizer a verdade pra ele e estragar seu sonho. Teve uma vez só que ele disse em ser outra coisa. Ai eu pensei em contar. Mas ele queria ser sabe o que? Pintor!”, se emociona dona Divanilda, mãe do ingênuo menino que não tinha ciência do quão cruel o mundo tinha sido com ele.

A comunidade da Funerária já se acostumou com os dias certos das cores certas. Há quem até combine suas roupas com o rio. “É a última moda aqui na comunidade, combinar as roupas com o rio. Eu mesmo auxilio várias pessoas interessadas em serem fashion”, afirma Zórrzê (Jorge), o único homossexual (vivo) da favela. É por essa razão que Divanilda não deixava seu filho sair de casa nas quartas-feiras. “Mas eu esqueci que esse mês era mês de São Patrício (santo muito celebrado na cultura da favela). E eles avisaram os moradores que o dia do verde seria adiantado. Eu esqueci e olha o que aconteceu. Mas não é culpa minha, deu ‘branco’ em mim”, afirmou a mãe que se diz roxa de raiva. ”O ‘vermelho’ do sangue tá correndo pelos meus olhos”.

Ironia do destino ou não, a vida de Divanilda sem seu filho ficará sem cor apesar de a morte esverdeada.

Da Redação com “Aquarela do Brasil”.

enviada por alguém da Redação






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